segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

UNEGRO CONTRA A INTERVENÇÃO MILITAR NO RIO DE JANEIRO

A decisão do governo federal em autorizar a intervenção federal e militar no Rio de Janeiro é mais uma manobra do desgoverno Temer, que visa colocar o golpe em curso no país em nova etapa. Não se propõe apenas a desviar foco da aprovação da Reforma da Previdência que o governo já provou não dispor de maioria qualificada no Congresso, mas, sobretudo visa elevar o patamar da violência institucional desta vez com o grave recurso às Forças Armadas. Tudo isso para dar continuidade ao seu projeto anti-democrático, entreguista, privatista e de cassação dos direitos trabalhistas e sociais. É de triste memória o legado dos 21 anos de Ditadura Militar para o povo brasileiro: censura, repressão e perseguição aos movimentos sociais e aos moradores das periferias. A intervenção federal militar aprovada ontem no Congresso é inédita desde a instauração do regime de 1988 e configura-se em mais um golpe que fere de morte a já combalida democracia brasileira.
Sob a liderança do general do Exército Walter Souza Braga Netto, o Exército, até o dia 31 de dezembro de 2018, passa a ter o controle absoluto das forças repressivas: a Secretaria de Segurança, Polícias Civil e Militar, Corpo de Bombeiros e o sistema carcerário no estado do Rio. Para a população negra e pobre, moradoras das favelas do Rio de Janeiro, o verdadeiro significado dessa intervenção é ampliação da violência contra negros e pobres, especialmente jovens por meio da intensificação da guerra às drogas e atuação das forças de repressão sem limites ou qualquer pudor. Ainda ontem foram autorizados mandados coletivos de busca e apreensão que nada mais são do que a autorização para entrar e vasculhar qualquer casa em qualquer comunidade ainda que não haja nenhuma configuração de suspeita de envolvimento em qualquer crime. Amplia-se o Estado de exceção, o alvo mais uma vez a população negra e pobre das favelas cariocas.
Os números da violência no Rio de Janeiro no último período desmentem a narrativa da grande mídia que após super-exposição midiática de assaltos na zona sul buscam propiciar a falsa impressão de uma situação de caos generalizado no estado e que deram base para a proposta de intervenção; ainda segundo o Anuário da Segurança Pública o Rio de Janeiro é o 11º estado brasileiro com pior situação da segurança pública. Assim, o que justifica que os outros 10 estados não recebam nenhuma ação suplementar do Governo Federal. Prova ainda o que sempre denunciamos que não seria possível este golpe sem o completo apoio midiático.
Importante ressaltar que a crise política e administrativa em que o Estado do Rio de Janeiro se encontra foi gestada e implementada pelos mesmos atores que defendem a intervenção militar como se não houvesse responsabilidade dos mesmos na produção da situação em que o estado se encontra. É o PMDB de Cabral (hoje preso), Pezão desgovernador e Temer golpista o responsável pela falência dos serviços públicos, fechamento de escolas, atraso em salários de servidores, desemprego em alta, que vêm sendo descarregada nas costas dos trabalhadores e do povo pobre e negro das maneiras mais brutais, enquanto isso aos capitalistas todas as benesses são permitidas, como a concessão de bilionárias isenções fiscais para os que mais lucram, entre inúmeros escândalos. Já para os trabalhadores e o povo pobre do Rio de Janeiro a única resposta que existe é a repressão, miséria, o assassinato de sua juventude pela polícia que classifica a ameaça pela cor da pele, ancorada numa política de confinamento territorial e delimitação do inimigo comum que é sempre a cara preta das periferias brasileiras.
Precisamos falar de segurança pública com seriedade e respeito ao povo. É urgente estancar os 60 mil homicídios por ano no Brasil, mais de 32 mil de jovens, em sua maioria negros. Urgente falar do baixíssimo índice de resolução de homicídios no Brasil, cerca de 8% chegam a conclusão das investigações, um dos piores do mundo. Urgente falar da desigualdade socioeconômica abissal onde apenas 6 pessoas detêm a mesma riqueza que 50% da população brasileira. Urgente falar desta perversa combinação do racismo com as desigualdades de classe que relativiza e banaliza as mortes diárias de um jovem negro a cada 23 minutos, de uma mulher negra a cada XXX hora e não promove a mesma comoção e mobilização da perda de um rolex no braço de um jovem branco e rico da zona sul. Urgente fazer uma ampla Reforma no Judiciário para que os crimes contra a vida da juventude negra resultem em julgamentos justos e punição aos agentes. Urgente aprovar o PL 4471/2012 que põe fim aos autos de resistência (legado perverso da Ditadura de 64) e obriga a investigação de todos os crimes cometidos por policiais no exercício da função. Urgente apontar que os maiores comerciantes de drogas, donos de helicópteros, famosos senadores, donos de aeroportos, com bancadas expressivas no Congresso Nacional, NÃO RESIDEM NAS FAVELAS E MORROS CARIOCAS! Essa guerra às drogas nada mais é do que a guerra aos pretos e pobres que vagam nos IMLs e cemitérios clandestinos do país ou mesmo superlotam as já degradadas prisões brasileiras. É a população que sobra, a população descartável como mesmo a Unegro já denunciou em 1988 no documento produzido pela Escola Superior de Guerra que fornece todo o respaldo institucional para o extermínio da juventude negra “Estrutura de poder nacional para o ano de 2001 – 1990/2000 a década vital para um Brasil moderno e democrático”.
Diante deste cenário, a Unegro denuncia a dimensão racista desta intervenção, defende que somente a retomada da democracia e das políticas públicas de geração de trabalho, emprego e renda, culturais, educacionais e sociais amparadas num amplo processo de retomado do papel do Estado no desenvolvimento econômico inclusivo será possível reduzir o atual quadro de pobreza, quedas contínuas nos empregos formais e informais no estado e também de insegurança. Um governo golpista e ilegítimo não reúne as condições para tal. Defende ainda o debate sério sobre a urgência de um Plano Nacional de Segurança Pública em que a defesa da vida esteja acima do ódio, da vingança e os interesses dos comerciantes de armas, em ampla consulta à sociedade o que apenas um governo democrático, eleito pelo voto popular e com respeito à soberana decisão do povo terá condição de liderar.


 Contra intervenção militar, contra as Reformas que retiram direitos, Fora Temer!

NÊGA SABINA. ESCRAVA E REBELDE. A CIGARRA DA AURORA BOREAL.


O mar revolto agitava o imenso navio que transportava a carga humana de mais de dois mil negros africanos, amontoados um sobre o outro, em condições desprezíveis e desumanas. Homens maldiziam a triste sina; mulheres lamentavam a dor de não ter leite nos seios para a amamentarem seus recém nascidos; crianças choravam de sede e de fome. Os velhos agonizavam... A escuridão era total. Não se sabia se era dia ou se era noite, mas havia um momento em que choros e lamentam cessavam e todos dormiam
Num indescritível paradoxo, o despertar dos negros e das negras era doce, sereno e traziam-lhes uma momentânea paz só experimentada nas aldeias africanas de onde foram arrancados e jogados naquele hediondo bojo de navio negreiro. Essa paz tinha a grata figura de uma jovem yourubana e chamava-se Bakwena.  Menina, ainda, com sua voz adocicada entoava seu canto com as falas de esperança e a melodia de uma plangência, que tocava a alma mais amargurada.
Se ao adormecer, a dor, a fome, a sede, o cansaço e as humilhações dilaceravam alma, o despertar dos africanos com a melodia de Bakwena aplacava, mesmo que momentaneamente, as dores dos irmãos de raça e de sofrimento. Os Griôs passaram a chamar a jovem cantante carinhosamente de Sonbesie, a Cigarra. E durante dias, semanas e meses, naquele nefasto bojo tumbal, o canto da Sonbesie tornou-se o sublime alento das negras criaturas desesperadas.
Os africanos trazidos ao Rio de Janeiro eram desembarcados no Cais do Largo do Carmo, hoje Praça XV. O local era o centro comercial escravagista. Ali, havia lojas, mercados, galpões e escritórios de corretores de mercadorias negras, pois era rentável o comercio de compra e venda de escravos. Também, eram forte no local e nas cercanias, pequenos e médios estabelecimentos, onde se fabricavam e vendiam objetos de ferro para tortura e aprisionamentos dos escravos.
Em início de 1834 chegou ao Cais do Largo do Carmo, entre milhares de escravos, a jovem menina, Bakwena, que debilitada da viagem seguiu numa embarcação menor, com outros igualmente debilitados, para o Ancoradouro do Valão Longo, hoje errônea e burramente definido como Cais do Valongo.
O Valongo nunca foi um cais. Qualquer historiador decente e correto, que recorrer às pesquisas, saberá que o local era um ancoradouro que recebia a escoação do sal, que vinha do cais do porto, e era depositada numa pedra, hoje a histórica Pedra do Sal.
O valão não tinha extensão e nem profundidade suficiente para receber grandes embarcações. No Cais do Largo do Carmo, as mercadorias eram transferidas para embarcações menores. Assim era com o sal e com os africanos e as africanas debilitadas, e inutilizadas devido aos sofrimentos durante a penosa viagem no bojo dos navios negreiros. Também os ditos incapazes como os velhos e as crianças.
O Ancoradouro do Valão Longo, que os desinformados denominam como Caís do Valongo, era um hediondo palco dos horrores, onde ocorria marcação a ferro dos africanos e de africanas, chibatadas, torturas, estupro... Havia também o mais terrível: o  nefasto comércio de crianças para escravos sexuais de padres, comerciantes, alferes e para provedores da Santa Casa de Misericórdia.
Somente os movimentos negros e o IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – enxergam naquele repugnante templo do holocausto dos Africanos, no Brasil, um local sagrado que deve ser venerado, cultuado e homenageado. Sem qualquer pesquisa honesta, conseguiram, junto a UNESCO, o titulo de Patrimônio Cultural da Humanidade.
Tentam saber quanto custou aos cofres públicos o titulo de Patrimônio Cultural da Humanidade conferido aquele palco dos horrores. Gastos com viagens internacionais, hospedagens, alimentação e diárias dos ‘historiadores”, “pesquisadores” e diretores do IPHAN, e divulgação paga na mídia. Uma fortuna. Para que? Quem hoje passa pelo local vê o estado lastimável em que se encontra. Lixos, ratos, criadouro de mosquitos da dengue... à noite, nos fins de semana, vira banheiro publico dos beberrões.
Negros marcados a ferro em brasa; crianças e mulheres estupradas à luz do dia; velhos moribundos despejados vivos na Baia de Guanabara; venda, compra e leilão de africanos... Esse palco dos horrores constitui um dos inúmeros desserviços, prestados pelos pretos de ganhos dos movimentos negros, à negritude brasileira, que hoje cultuam com honraria, religiosidade e culinária, aquele abatedouro de africanos.
Os adultos enfermos e crianças debilitadas, vendidos por quantias insignificantes, depois de “recuperados” na Santa Casa de Misericórdia, eram devolvidos aos seus proprietários, e retornavam ao Valão Longo para serem alugados como pretos de ganho, servos, pescadores, recolhedores de excrementos dos animais de tração, transportadores das liteiras, cozinheiras e damas de companhia. As negras tinham ainda a desventuras de serem levadas para regiões longínquas, do Estado do Rio de Janeiro, para serem escravas sexuais, principalmente de párocos, vigários, de cabos e soldados e de alferes. Essa era a hedionda rotina no Valão Longo..
Segundo o Historiador, Israel de Paula, não foi diferente com a menina Bakwena.
Disserta o Historiador. – Arrematada por um Tropeiro, Bakwena foi encaminhada à Santa Casa de Misericórdia, onde depois de recuperada foi devolvida ao Tropeiro. Por ter uma divida pessoal com um certo Padre, da Freguezia do Pilar do Igoaçu, foi doada a ele.
O primeiro registro que assinala a existência de Bakwena está registrado no livro de aquisição de “peças”, da Freguezia do Pilar do Igoaçu, de 30 de Outubro de 1834, que consta: ... que foi recebido por doação, uma negrinha, de nome, africano, Bakwena, de 14 anos, de seios pontudos, lábios grosso, olhos negros, que segundo disse o Capitão Mor Severiano Duarte, é da nação Yorubá, mas o Reverendo Padre Nuno Paes Leme, batizou com o nome de Sabina. (...) Nesta freguesia há somente um engenho de fazer Açúcar, que pertence ao próprio, padre dono de outros 70 escravos. PS. Descrições versadas ao português atual.
Após ter recebido a “doação”, o Padre Nuno Paes Leme, iniciou a violentar a menina Bakwena, mantendo-a durante anos – entre fugas e capturas – como escrava da sua nefasta libido. Desse ato hediondo, nasceram filhos que foram vendidos ou doados sem o conhecimento, e sem que a mãe soubesse o destino.
Cansada dos maus tratos e da violência sexual ao qual lhe foi imposto pelo Vigário Geral, Bakwena executou inúmeras fugas. Recapturada, fugia de novo.
A fama da Nêga Sabina, como passou a ser conhecida nos engenhos, fazendas, senzalas e Quilombos Fluminense, foi além do seu canto de aplacar as dores suas e dos seus iguais. Ficou conhecida também pelas fugas que executavam mesmo sob a severa vigilância dos feitores do Padre Nuno. O Padre, no entanto, sempre colocava um batalhão de capitães do mato e, também, valia-se de soldados cedidos pelo capitão mor para trazê-la de volta.
Os antigos, da região que vai de Gramacho, Baixada Fluminense, à Santa Maria Madalena, no sudoeste fluminense, contavam que as fugas da Nega Sabina aconteciam nas diversas cadeias em que era presa. A motivação dessas fugas era sempre a mesma: o seu canto que seduziam os carcereiros.
Na solidão das celas, principalmente nas noites de luar, ela entoava seu canto dolente da áfrica distante, que tocava fundo na alma dos carcereiros, todos africanos ou filhos de africanos. Seduzidos pela doce voz da negra, da plangente melodia e da mensagem de liberdade na letra do canto, eles abriam as celas e dava fuga à prisioneira. Algumas vezes, por sua beleza e formosura, seduzia-os a um suposto idílio amoroso. Ao ter as celas abertas, colocava o sedutor fora de combate e ganhava a estrada.
Foi o Historiador Israel de Paula quem me falou da Nega Sabina, a Cigarra da Aurora Boreal. E narrou-me como tomou conhecimento dessa Personagem Negra, que a história não menciona. Narrou-me Ele.
Eu já tinha ouvido fala da Nega Sabina, mas foi Dona Evangelina Nascimento, aos 95 anos, carapinha branca e o seu tradicional cachimbo no canto da boca, quem forneceu-me em Visconde de Imbé, Noroeste Fluminense, em Maio de 1982, um relevante depoimento. Esse material ficou anos perdido. Com regozijo consegui recuperar as quatro paginas velhas datilografadas. O depoimento da Dona Evangelina foi colhido no mini gravador K7, depois transcrito para uma “bolacha” de vinil e, finalmente, datilografado. Devido às mudanças de residências, o material ficou numa caixa no sótão da casa da minha irmã mais velha, na Vila Valqueire, e me foi devolvido poucos anos atrás.
E continua o Historiador mostrando-me uma página digitada – Eis um trecho do depoimento da (hoje falecida) Dona Evangelina: – Uma das passagens mais bonitas que eu ouvia quando menina, sobre a Nega Sabina, foi quando ela foi capturada por um capitão do mato, nas matas de Magé. Numa noite alta, Nega Sabina estava com os pés e as mãos amarradas. Tinha sede e fome.  O catiço do capitão do mato já estava pronto para usar ela paras as sem vergonhices dele. De repente ela começou a cantar uma canção muito triste do lugar de onde ela veio da África.  O capitão do Mato, também era africano, lá daquelas bandas. E não é que o nêgo safado ficou abilolado com a música da Nêga!  Com o remorso remoendo por dentro, o maldiçoado capitão do mato desamarrou a coitada, e ainda deu pra ela um bornal com um naco de carne seca e uma botija de farinha e mandou a infeliz seguir o rum dela. Quando os dois se despediram, ela deu nele um longo e apertado abraço e disse:
– “Você é preto. Preto não deve fazer cativo outro preto. Preto não deve vender nem perseguir e nem açoitar outro preto” – Minha avó, que Deus tenha lá no reino da glória, contava que a partir daquele dia, o preto deixou de ser capitão do mato e passou a ser um libertador de escravos.. Ele até se ajuntou com o Curiango (*), num Quilombo lá pras bandas, de Conceição de Macabu. (Noroeste Fluminense)
(*) Curiango. Escravo fugitivo que liderou várias revoltas e deu fuga a muitos escravos, no Estado do Rio de Janeiro. Também fundou vários Quilombos, na região serrana, no norte e no noroeste do estado. – Informação prestada pelo Historiador.
E a trajetória de fugas e capturas da escrava Nêga Sabina continuava.
No livro de capturas do chefe da policia da província do Rio de Janeiro, do ano de 1850, consta. – A 05 de Maio, em Itaborahy, foi capturado pelos soldados do Alferes Tenório Marinho e entregue a cadeia publica, a escrava fugitiva e criminosa, de vulgo Nêga Sabina, pronunciada no referido termo por crime de morte contra o Reverendo Padre Nuno Paes Leme, da Freguezia do Pilar do Igoaçu, seu dono, no dia 23 de Março, deste mesmo ano.
Cansada dos anos de suplicio e de violência praticados contra ela, pelo infame padre, Nêga Sabina o matou.
Segundo Israel de Paula, o ultimo e trágico registro, da trajetória de Bakwena em terras fluminenses, assinala o fim de uma vida de muitos sofrimentos, fugas, prisões, lutas, resistências e cantos. Cantos que amenizaram muitas dores e sofreres, mas que se calaram de forma cruel e covarde.
A 03 de Dezembro de 1855, em Sant’Anna do Macacú, foi capturado o soldado Genebaldo Cabral dos Santos, desertor da tropa de linha, por haver assassinado a golpes de faca nas costas a escrava de vulgo Nêga Sabina, fugida da cadeia da pública da capital....
Apesar da sua real existência, nos dias de hoje, pouco ou quase nada se fala da Nêga Sabina. O seu nome africano, Bakwena, foi esquecido logo após ser cedida ao padre.
Continua o Historiador. – Soube da sua existência quando menino, em meado dos anos 70, em Trajano de Moraes, noroeste fluminense, por meio da Yolarixá, Cota D’Oxum, na época com 96 anos.  Um conteúdo maior, no entanto, consegui em 1982, em viagem a Visconde de Imbé, quando conheci a senhora Evangelina que, numa roda de conversa, mencionou a Nega Sabina. De posse de um gravador mini K7, gravei o depoimento dela.
No segundo semestre de 2011, eu próprio, ao pesquisar sobre Joãozinho da Gomeia, na comunidade Sarapuí, em Gramacho, Duque de Caxias, Baixada Fluminense, ouvi sobre a Nega Sabina.  Foi por meio da, hoje falecida, Mãe Pequena, Dona Valdevina. Ela me falou sobre a Nêga Sabina e a sua luta de resistência contra a escravidão negra. Falou também sobre o seu poder de acalmar as dores dos cativos e das cativas com seu canto plangente da África distante. E falou sobre o poder de sedução da sua bela e formosa imagem.
Israel de Paula afirma que ao compilar suas pesquisas, pode perceber que, com o passar dos tempos, o raríssimo material que assinala a trajetória da doce menina Bakwena, mostra-á transformada na Nega Sabina, fugitiva e desordeira. Essa referência, em outras palavras, denota segundo ele que a menina debilitada transformou-se numa rebelde. E todos nós sabemos que foram os (as) rebeldes os (as) líderes fomentadores  das grandes lutas e revoltas dos escravos.
O doce canto da menina Bakwena, transformada na guerreira Nêga Sabina, certamente inspirou as lutas de Lélia Gonzales e de Beatriz Nascimento; sublimam em resistência as amargas lágrimas das negras mães dos filhos vitimas do genocídio promovido pela forças policias racistas; embala a arte de Ruth de Souza, de Léa Garcia e de Zezé Motta nos palcos, nos estúdios e nas locações; inspira a literatura de Conceição Evaristo e da Helena Theodoro, inspiram as adoradas vozes e canções de Alaíde Costa e de Áurea Martins...
Hoje, a presença de Bakwena na historiografia ou na mitologia do escravismo no Brasil não é conhecida, pesquisada e nem estudada; talvez, porque  o pré nome vulgarizado, Nêga, gerador do apelido de guerra Nêga Sabina, não desperta o interesse de negras e de negros pesquisadores e historiadores.
Há outras mulheres escravas, heroínas negras, com o apelido “Nêga” usado como pré nome. 
Todas com histórias de muitas lutas e resistências: Nêga Cafusa, Nêga Crioula, Nêga Esmeralda, Nêga Dandara que lamentavelmente não são merecidamente estudadas.

A Cigarra da Aurora Boreal.

Flávio Leandro
Cineasta, Professor de Produção Audiovisual, Professor de Produção Teatral.


sábado, 16 de dezembro de 2017

A JUVENTUDE NEGRA CONTINUA SENDO A MAIOR PARTE DAS VÍTIMAS DE HOMICÍDIO NO BRASIL


11 de dez (Há 2 dias)

"De acordo com o estudo, a população negra, jovem e de baixa escolaridade continua totalizando a maior parte das vítimas de homicídios no país"

Essa desigualdade se manifesta ao longo de toda a vida e em diversos indicadores socioeconômicos, em uma combinação perversa de vulnerabilidade social e racismo que os acompanha durante toda a vida. Não à toa, negros e negras ainda sofrem com enormes disparidades salariais no mercado de trabalho: dados recentes divulgados pelo IBGE mostram que negros ganham 59% dos rendimentos de brancos (2016)”, diz o documento.

“Assumir que a violência letal está fortemente endereçada à população negra e que este é um componente que se associa a uma série de desigualdades socioeconômicas é o primeiro passo para o desenvolvimento de políticas públicas focalizadas e ações afirmativas que sejam capazes de dirimir essas inequidades”,

É a primeira vez que o estudo traz o recorte de gênero, mas não foi possível determinar a razão entre as duas taxas em Alagoas por não ter sido registrado nenhum homicídio de mulher branca nessa faixa etária em 2015. A taxa de mortalidade entre jovens negras, no
entanto, foi alta: 10,7 por 100 mil habitantes.

Atualmente, de cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. De acordo com informações do Atlas, os negros possuem chances 23,5% maiores de serem assassinados em relação a brasileiros de outras raças, já descontado o efeito da idade, escolaridade, do sexo, estado civil e bairro de residência.

“Jovens e negros do sexo masculino continuam sendo assassinados todos os anos como se vivessem em situação de guerra”.
Dado revela a persistência da relação entre o recorte racial e a violência no Brasil. Enquanto a mortalidade de não-negras (brancas, amarelas e indígenas) caiu 7,4% entre 2005 e 2015, entre as mulheres negras o índice subiu 22%.

O Atlas da Violência 2017, que analisou a evolução dos homicídios no Brasil entre 2005 e 2015 a partir de dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde, mostra ainda que aconteceram 59.080 homicídios no país, em 2015. Quase uma década atrás, em 2007, a taxa foi cerca de 48 mil.

Este aumento de 48 mil para quase 60 mil mostra uma naturalização do fenômeno por parte do poder público. Daniel Cerqueira, coordenador de pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, explica que a naturalização dos homicídios se dá por processo históricos e econômicos de desigualdade no país, “que fazem com que a sociedade não se identifique com a parcela que mais sofre com esses assassinatos”, afirma.

Entre os estados, o de São Paulo foi o que apresentou a maior redução, 44,3%. Já no Rio Grande do Norte, a violência explodiu com um aumento de 232%.

Mulheres negras também na mira do extermínio -Em 2015, cerca de 385 mulheres
foram assassinadas por dia. A porcentagem de homicídio de mulheres cresceu 7,5% entre 2005 e 2015, em todo o País.

As regiões de Roraima, Goiás e Mato Grosso lideram a lista de estados com maiores taxas de homicídios de mulheres. Já São Paulo, Santa Catarina e Distrito Federal, ostentam as menores taxas. No Maranhão, houve um aumento de 124% na taxa de feminicídios.

Segundo o Atlas, em inúmeros casos, as mulheres são vítimas de outras violências de gênero, além do homicídio. A Lei Maria da Penha categoriza essas violências como psicológica, patrimonial, física ou sexual.

A Lei do Feminicídio, aprovada há dois anos, foi importante para dar mais visibilidade aos assassinatos de mulheres. As informações do número de feminicídios, porém, ainda não aparecem na base de dados do SIM, constando como homicídio de mulheres.

Segundo dossiê realizado pelo Instituto Patrícia Galvão, o feminicídio corresponde à última instância de poder da mulher pelo homem, configurando-se como um controle “da vida e da morte”.

Cerqueira entende que esta e outras categorizações de assassinatos, como o feminicídio, são importantes pois “desnudam o enredo por trás das mortes”. O Brasil ocupa a quinta posição em número de feminicídios num ranking de 83 países.

“A criação de políticas públicas passa pelos dados angariados através dessas categorizações”, afirmando que, para combater esses assassinatos, o Estado não deve apenas se concentrar em aumentar o número de policiais nas ruas.

Juventude perdida!? - O Atlas mostra também que o assassinato de jovens do sexo masculino entre 15 e 29 anos corresponde a 47,85% do total de óbitos registrados no período estudado. Nessa mesma faixa etária, em Alagoas, foram 233 mortes para cada 100 mil homens. Em Sergipe, 230 homens para 100 mil.

Embora registre 197,4 casos por 100 mil habitantes, Rio Grande do Norte foi o estado que apresentou maior aumento na taxa de homicídios de homens nesta faixa etária, 313,8 %, no
período entre 2005 e 2015.

Segundo o Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência e Desigualdade, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública acrescentou ao indicador de violência de jovens um indicador de desigualdade racial.

A partir disso, constatou-se que os jovens negros entre 12 e 29 anos estavam mais vulneráveis ao homicídio do que brancos na mesma faixa etária. Em 2012, a vulnerabilidade alcançava mais que o dobro.

Em lista dos cinco estados mais violentos do país, ocupando a 15ª posição nacional, em 2015. Segundo informações do Atlas, isso ganhou força devido ao Programa Estado Presente, de 2011, apesar da crise da greve dos policias militares no começo de 2017."A situação foi a mesma em Roraima, onde a taxa de jovens negras assassinadas foi 9,5 mortes por 100 mil habitantes, mas nenhum assassinato de jovem não negra".

No topo da desigualdade entre as taxas de homicídio estão os estados do Rio Grande do Norte, no qual as jovens negras morrem 8,11 vezes mais do que as jovens brancas, e do Amazonas, cujo risco relativo é de 6,97 (o risco relativo é a variável que considera as diferenças de mortalidade entre brancos e negros).
Em terceiro lugar aparece a Paraíba, onde a chance de uma jovem negra ser assassinada é 5,65 vezes maior do que a de uma jovem branca. Em quarto lugar vem o Distrito Federal, com risco relativo de 4,72.
Nos estados de Alagoas e Roraima não foi possível calcular a razão entre as duas taxas por não ter sido registrado nenhum homicídio de mulher branca nessa faixa etária em 2015. As taxas de mortalidade entre jovens negras nesses estados, no entanto, foram altas: 10,7 e 9,5 mortes por 100 mil habitantes, respectivamente.

Entre os homens, a chance de um jovem negro ser assassinado é 2,7 vezes superior à de um
jovem não negro. O índice é maior que o registrado no levantamento divulgado em 2015.A situação mais preocupante é a de Alagoas, onde um jovem negro tem 12,7 vezes mais chances de morrer assassinado do que um jovem branco. Na Paraíba essa diferença é de 8,9 vezes, índice também muito alto.

Para a representante da Unesco no Brasil, Marlova Jovchelovitch Noleto, “a violência contra a juventude negra no Brasil atingiu índices alarmantes”.

Um afro abraço.
Claudia Vitalino.

fonte:https://www.cartacapital.com.br/https://anistia.org.br


Claudia Vitalino.
Saudações  Unegro - Rio de Janeiro

terça-feira, 21 de novembro de 2017

FECAN - FESTIVAL DE CULTURA E ARTE NEGRA.

Programação do FECAN 2017-11-17
Dia - 22 de Novembro Audiência Publica tema a defesa e promoção da Igualdade Racial em Montes Claros- MG, local Câmara Municipal, às 19h

Dia - 24 de Novembro Oficinas: Percussão e Dança Afro com Luciano de Jesus
Local AV Amperes 365 Bairro de Lurdes, das 16h às 21h


Dia - 25 de Novembro Sábado 2ª Marcha Contra o Racismo e a Intolerância Religiosa Concentração às 8h Praça da Catedral

Área Externa do Museu Regional do Norte de Minas entrada pelo Beco da Vaca
Oficinas e apresentações culturais:
Oficina: Dança de Rua com Dário Adam 12h
Oficina: Capoeira Angola com Jean Angoleiro 14h
Oficina: Graffite com Wender Miranda 16h
Oficina: Musicalidade Maristela Cardoso 17h

Apresentações Culturais a partir das 16h

MACULELÊ
NÚCLEO DE DANÇA LUCIANO DE JESUS
ELENICE  DIAZ
PUXADA DE REDE
FERNANDO COELHO
JANINE ALMEIDA
GRUPO SERESTA SERESTRANDO
WENDER MIRANDA
SANDRINHO
BOB MARCILIO
DEBORA GUEDES E EMILLY CHRISTIE

Dia – 26 de Novembro Domingo Oficina: Artesanato Janaelle Neri 9h
Apresentações Culturais a partir das 9h
Local Área Externa do Museu Regional de Montes Claros

ROSA PAIXÃO
MARISTELA CARDOSO
CORAL ROTARIANO
IRACEMA REIS
CESAR JULIANO
PEDRO NARCISO
LOY DAMACENO
RODA DE CAPOEIRA COM VÁRIOS GRUPOS

ENCERAMENTO DO FECAN NO NÚCLEO DE DANÇA LUCIANO DE JESUS A PARTIR DAS 14h

COM RODA DE SAMBA E COMIDA DI PRETO
Local AV Amperes 365 Bairro de Lurdes


segunda-feira, 25 de setembro de 2017

A cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no Brasil

"A cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no Brasil"
Um milhão de mortes
Especialistas costumam usar a palavra epidemia para se referir à mortandade de jovens no Brasil, especialmente de jovens negros. De acordo com o Mapa da Violência, a taxa de homicídios entre jovens negros é quase quatro vezes a verificada entre os brancos (36,9 a cada 100 mil habitantes, contra 9,6). Além disso, o fato de ser homem multiplica o risco de ser vítima de homicídio em quase 12 vezes.
"a violência na Rocinha é mais um sinal de desde o lançamento de um programa de pacificação em 2008, para reduzir a violência, pressionando traficantes e estabelecendo postos permanentes em mais de mil favelas da cidade nunca aconteceu de fato...
'Medalha de ouro para corrupção': 'Imunidade parlamentar é injustificável', diz 'NY Times'

A BBC Brasil dados preliminares do Mapa que será divulgado este ano: de 1980 a 2014, o número de mortes por arma de fogo no Brasil soma quase um milhão. Entre 1980 e 2014 morreram 967.851 pessoas vítimas de disparo de arma de fogo, sendo 85,8% por homicídio. Em caso de resistência à prisão, o Código de Processo Penal autoriza o uso de quaisquer meios para que o policial se defenda ou vença a resistência. Determina também que seja lavrado um auto, assinado por duas testemunhas - daí o nome auto de resistência. Muitas vezes, tais registros escondem execuções em "confrontos" que nunca aconteceram.
Em os pretos vira numero...
A causa mais comum das mortes foi o "conflito interpessoal" (59% do total), seguido de conflito generalizado (17%) e de uma proporção estarrecedora de suicídios dentro do sistema - 14%. O país tem cerca de 24 mil adolescentes em "situação de privação de liberdade", ou seja, mantidos em unidades para ressocialização. Segundo o Sinase, 57,41% deles são pretos ou pardos, enquanto em 17,15% dos casos não houve resposta sobre cor ou raça.
Hoje, as tais tropas se concentravam, em especial, na Baixada Fluminense, nos arredores do Aeroporto Internacional do Galeão e na Zona Oeste. Também havia soldados espalhados pela praia de Ipanema, na Zona Sul do Rio, e em frente ao Museu do Amanhã, na zona portuária .
Enfim tudo isto mostra o que nos moradores de favelas já denunciam a muito o programa de ocupação da policia não foi feito o governo de verdade nunca ocupou as favela, entraram apenas para matar pretos e pobres.. O estado não entrou com programas sociais eficiente que desse uma alternativa, para a juventude,a policia nunca que em parte e corrupta nunca se mostrou como um espelho e parceiro e amigo dos moradores de favela...
Pronto falei.
Claudia Vitalino.- moradora de favela,historiadora-UNEGRO RJ
TristeMostrar mais reações
Comentar

Em 24 de setembro de 1973,a Guiné-Bissau declara sua independência de Portugal.

Em 24 de setembro de 1973,a Guiné-Bissau declara sua independência de Portugal.
Luta pela Independência
Em 1956, Amílcar Cabral e Rafael Barbosa fundou o clandestino Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC). O PAIGC mudou sua sede para Conakry na Guiné Francesa em 1960 e começou uma rebelião armada contra Portugal no próximo ano.
Hoje a Guiné Bissau está entre os 20 países mais pobres do mundo e depende apenas de sua agricultura e da pesca. Recebe ajuda do FMI e segue o seu receituário, tanto que em 2015 o país cresceu 3,5%, alavancado pelo excelente preço da castanha de caju. Também produz petróleo, o que pode ser sua salvação e sua ruína.
Mas, a maior riqueza do país é, sem dúvida, o seu povo, que mantém vivo o sonho de um país livre das dificuldades e se expressa numa rica cultura musical e também no originalíssimo carnaval. Apesar de uma história de guerra e tragédias, a alegria é um motor que move a gente da Guiné Bissau no rumo de uma verdadeira libertação.
CurtirMostrar mais reações
Comentar

Caravana mineira cumpre agenda pela igualdade racial no Rio de Janeiro

A Caravana Cais do Valongo, organizada pela Secretaria de Estado de Direitos Humanos, Participação Social e Cidadania (Sedpac), cumpriu com sucesso sua programação no Rio de Janeiro, no dia 17 de setembro/17. A comitiva, com destino ao Sítio Arqueológico Cais do Valongo, contou com a participação dos secretários de Estado Nilmário Miranda (Direitos Humanos) e Macaé Evaristo (Educação), de servidores, representantes de movimento negro e artistas.
Considerado o mais importante símbolo do tráfico transatlântico de humanos e validado como Patrimônio da Humanidade pelo Comitê do Patrimônio Mundial da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), o Cais teve suas ruínas redescobertas em 2011, durante as obras para os Jogos Olímpicos de 2016.
O resgate dessa história reforçou o debate sobre a importância da preservação da memória do período escravagista e da crueldade do tráfico negreiro. Estima-se que dos 4 milhões de africanos escravizados trazidos para o Brasil, um milhão desembarcaram no Valongo.
Durante a visita, o secretário Nilmário Miranda ressaltou a importância de relembrar a trajetória dos que ali chegaram, tendo o processo de memorialização como instrumento de luta para o enfrentamento das desigualdades sociais no país.
“Conhecer esse local representa para nós um momento simbólico diante da proposta da Sedpac de trabalhar pela promoção da igualdade racial em Minas Gerais. Uma coisa é saber, outra é sentir de perto que tudo que o lugar significou e significa, especialmente dentro do contexto de realização da Conferência Estadual de Promoção da Igualdade Racial”, afirmou o secretário.
Nilmário destacou ainda que a Conferência, que será realizada de 29 de setembro a 1° de outubro e terá como tema “O Brasil na Década do Afrodescendente: Minas Gerais Promovendo a Igualdade Racial - Por Nenhum Direito a Menos”, irá embasar as políticas públicas que colocarão o Estado alinhado com os princípios da Década Internacional de Afrodescendentes (2015-2024), proclamada pela Assembleia Geral da ONU.
Comentar

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

A Cor dos Homicídios no Brasil



A sociedade brasileira é em sua grande maioria racista. Embora representem 51% da população, os negros não ocupam proporcionalmente as mesmas vagas de trabalho, não têm as mesmas oportunidades. São vítimas de um preconceito que se perpetua por séculos. São marginalizados.
A origem dessa discriminação data de algumas centenas de anos, com o sistema de escravidão instaurado no Brasil por portugueses, abolido somente em 1888, pela Lei Áurea, há 125 anos. As relações de poder entre brancos e negros era nitidamente a do colonizador e do escravo, que mais tarde se transformou na relação do patrão e do empregado, do rico e do pobre.
Um dos reflexos desse racismo é a violência contra negros, que vem aumentando nos últimos anos. No Brasil morrem mais negros do que brancos, em sua maioria jovens em situação de pobreza, que perdem a vida precocemente, entre os 20 os 25 anos.
De acordo com o Ministério da Saúde, foram registrados 49.932 homicídios em 2010. Pouco mais da metade (53,3%) das vítimas eram jovens, dos quais 76,6% negros (pretos e pardos) e 91,2% do sexo masculino.
Em 2010 morreram 132% mais negros do que brancos vítimas de homicídio. No mesmo ano, o número de jovens negros superou em 152% o número de vítimas brancas. (Mapa da Violência 2012: a Cor dos Homicídios no Brasil,  de Julio Jacobo Waiselfisz. Cebela, Flacso; Brasília: Seppir/PR, 2012).
Concomitantemente, o governo federal tem intensificado e fortalecido as políticas públicas de inclusão de negros para diminuir as desigualdades raciais históricas, sobretudo a partir de 2003, com a criação da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir).
Um plano específico de prevenção ao problema da violência foi criado pela Secretaria-Geral da Presidência da República, por meio de uma ação compartilhada entre a Seppir e a Secretaria Nacional de Juventude (SNJ): o Plano Nacional de Prevenção à Violência contra a Juventude Negra –  Juventude Viva, que, em conjunto com estados e municípios, vem promovendo, há apenas um ano, mudanças na cultura brasileira e na sua forma de se relacionar com o negro.
O negro teve grande importância na construção do Brasil e de toda a sua riqueza e tem de ser reconhecido, e não violentado. “Um dos grandes desafios da democracia de hoje é o enfrentamento ao problema da violência contra jovens negros, homens e mulheres. São 27 mil mortes ao ano. É como se caíssem dois aviões com pessoas por semana. Temos de nos organizar, e os estados e municípios são fundamentais para o alcance das políticas públicas para quem mais necessita”,  disse a coordenadora do Juventude Viva pela SNJ, Fernanda Papa.
Racismo no Brasil
Pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo em 2008 verificou que 87% dos brasileiros reconhecem o racismo na sociedade, mas apenas 4% assumem ser racista.
“Há um paradoxo nesses números. A sociedade brasileira condena o racismo no discurso, não se declara em sua maioria racista, mas quando sondamos a presença do negro nos círculos de relações e de trabalho dessas pessoas, por exemplo, percebe-se que a recusa é grande”, observa Maria Palmira da Silva, professora de Psicologia Social, co-organizadora do livro Racismo no Brasil, publicado pela Editora Fundação Perseu Abramo.
A publicação reúne análises de diversos especialistas sobre os números da pesquisa. Entre as principais constatações desse trabalho está a de que vivemos numa sociedade racista, com um racismo difuso e difícil de ser identificado.
De acordo com o IBGE, o número de pessoas que se declaram negras vem aumentando. Em 2005, eram 48% e, em 2012, a porcentagem passou a 53%. “Como o racismo produz sofrimento às vítimas, há um receio delas em assumir essa condição. Quando a identidade do negro passa a ser valorizada, reconhecida, esse cenário se modifica”, explica Palmira.
Segundo a professora, o fortalecimento do debate sobre a questão do negro e o crescimento das políticas públicas estão fazendo com que o fenômeno do racismo se intensifique em alguns setores. “Importantes políticas como cotas para negros em universidades, vagas nos serviços públicos e os programas de saúde para a população negra estão contribuindo para que o negro conquiste mais espaços na sociedade, e isso provoca uma reação maior de determinados grupos racistas”, afirma Palmira.
Mapa da violência contra negros
O Brasil ocupa o 18º lugar em número de homicídios na ranking mundial de países. Das mortes, os jovens lideram a lista de vítimas, principalmente negros do sexo masculino.
Os dados nacionais são obtidos por meio do Sistema de Informações sobre Mortalidade, do Ministério da Saúde (SIM/MS), que, apesar de estudar a evolução dos homicídios desde 1979, vem aplicando um olhar diferenciado ao quesito raça e cor a partir de 1996. Em 2002, a identificação de raça/cor já correspondia a 92,6% dos relatórios de homicídios.
A partir dessa sistematização, os mapas da violência passaram a trazer informações mais aprofundadas sobre a questão racial a partir de 2005, quando os números demonstraram uma realidade bastante preocupante, que vem se agravando com os anos.
Entre 2002 e 2010, os mapas apontaram redução do número de vítimas de homicídios na população branca e elevação na população negra, tanto adulta como jovem. Nesta, subiu de 58,6% para 71,1%, ao passo que naquela caiu de 41% para 28,5%.
Os homicídios de negros, portanto, aumentaram quase 30% no período, com o número de mortes saltando de 26.952 para 34.983.
No caso dos jovens, recuou de 37,5% para 24,6% na população branca e passou de 62,2% para 75,1% na negra.

Casos triplicaram nos últimos dez anos
A proporção de homicídios entre negros em relação aos brancos é cada vez maior. Em 2002, a taxa de vitimização foi de 65,4%, em 2006 passou para 90,8%, e em 2010 chegou a 132,3%. Isso significa que, em 2010, para cada branco vítima de homicídio, morreram 2,3 negros pelo mesmo motivo.
O ranking dos oito estados mais preocupantes são: Alagoas (80,5%), Espírito Santo (65%), Paraíba (60,5), Pará (55,1%), Pernambuco (54,6%), Distrito Federal (52,8%), Bahia (47,3%) e Mato Grosso (39,7%). Nas Regiões Norte e Nordeste, portanto os números são os mais alarmantes.
Alagoas, o mais violento
O estado de Alagoas, lugar onde viveu e morreu Zumbi dos Palmares, registra a maior taxa de homicídios do país. De acordo com o SIM, lá são registradas 110 vítimas para cada 100 mil habitantes. Entre jovens, a taxa de alcança 275,5 e, entre negros, 332,1.  
O índice de homicídios de negros é três vezes maior que em outros estados: 84,9 em cada 100 mil habitantes mortos.
Em 2010, foram 2.086 vítimas, das quais 81% eram negras e, em sua maioria (62%), jovens do sexo masculino.
“A principal causa da violência está no elevado número de jovens usuários de drogas e na grande evasão escolar. Hoje verificamos que Maceió reduziu em 24% o número de jovens negros mortos de 2012 para 2013. Parte, em razão das ações sociais voltadas a esse segmento, como capoeira, artes, educação, saúde e emprego”, explica a coordenadora do Plano Juventude Viva em Alagoas, Katia Born.
Ações afirmativas
Para enfrentar o problema, o Juventude Viva pretende levar aos jovens dos bairros de maior risco social ações na área da educação, saúde, trabalho, cultura e esporte, oferecendo uma alternativa para prevenir a violência e ampliar direitos.
“O plano nasceu de uma demanda da sociedade, eleita prioritária durante a I Conferência de Igualdade Racial, realizada em 2008, de modo a sensibilizar atores do governo federal para trazer a juventude negra para o foco da ação, reconhecendo-a como sujeito de direito que até hoje não é tratada com a devida importância”, diz a coordenadora Fernanda.
O plano visa diminuir a vulnerabilidade de jovens em situações de violência física e simbólica, a partir da criação de oportunidades de inclusão social e autonomia; da oferta de equipamentos, serviços públicos e espaços de convivência em territórios que concentram altos índices de homicídio; e do aprimoramento da atuação do Estado por meio do enfrentamento ao racismo institucional e da sensibilização de agentes públicos para a questão.
“O grande desafio é enfrentar o alto número de mortalidade de pessoas negras, desde mulheres em maternidades até a juventude negra pobre, e reverter a representação negativa sobre essa população no Brasil. Os negros não são pensados para ocupar os espaços de poder na sociedade”, afirma Felipe Freitas, coordenador do Juventude Viva pela Seppir.
O público-alvo são jovens negros de 15 a 29 anos do sexo masculino, em sua maioria de baixa escolaridade, moradores de bairros da periferia, em situação de exposição à violência, incluindo doméstica, em situação de rua, cumprindo medidas socioeducativas, egressos do sistema penitenciário e usuários de crack e outras drogas.
Pacto federativo
Estados e municípios selecionados a partir do critério de prioridade, aqueles onde os índices de violência são mais altos, estão habilitados a assinar um termo de adesão ao Plano Juventude Viva e elaborar planos nas esferas correspondentes. A relação dos municípios pode ser consultada na página Juventude Viva.
Quatro dos oito estados com maior índice de homicídios de jovens negros já assinaram o Plano Nacional de Prevenção à Violência contra a Juventude Negra: Alagoas, Paraíba, Distrito Federal e Bahia.
Muitas cidades, independentemente de o estado ter aderido, também estão participando do plano. Ao todo, são 147 municípios que podem aderir até 2014 aos quatro eixos de ação interligados às políticas locais.
Das capitais, cidades onde os casos de violência são bastante agravados, participam Maceió, João Pessoa, Brasília e São Paulo, a mais recente a firmar a parceria com o plano, em outubro de 2013.
“O grande legado que o Juventude Viva traz é colocar na ordem do dia a violência contra a juventude negra como um problema de toda a sociedade brasileira. Um problema que responde a um passivo de dívida de séculos que temos com essa população”, avalia Fernanda.
Violência institucionalizada
O preconceito racial está presente em todos os setores da nossa sociedade, inclusive nas instituições, fator que tem contribuído para a intensificação das políticas afirmativas e a capacitação de gestores públicos sobre a questão.
“O racismo institucional é aquele que se dá pelo funcionamento sistemático de uma instituição, para além da conduta individual daqueles que dela participam. Assim, uma instituição como a polícia, a escola, o hospital, o Parlamento pode funcionar de maneira racista e discriminatória, mesmo mudando seus componentes individuais”, explica o professor de criminologia da Uneb e Uefs (Bahia) Riccardo Cappi.
Segundo dados não oficiais divulgados em 2009 pela Justiça Global, a polícia seria responsável pela morte de 20% dos negros no Brasil.
Um documento do comando da Polícia Militar de Campinas, no interior de São Paulo, assinado recentemente pelo capitão Ubiratan de Carvalho Góes Beneducci, veio a público e chocou autoridades e defensores dos direitos humanos. O texto orientava os policiais que atuam no bairro Taquaral, região nobre daquela cidade, a abordar com rigor pessoas “em atitude suspeita, especialmente indivíduos de cor parda e negra”.
“Temos uma polícia que, ainda hoje, provoca mortes em demasia, especialmente de jovens negros. Sabe-se que a proporção de mortos da sociedade civil e da polícia em confronto é de 20 para 1. Um número acima do que foi estipulado pela ONU (10 para 1)”, pontua Cappi.
O secretário Nacional de Assuntos Legislativos, Marivaldo Pereira, disse que é importante não demonizar nenhuma instituição, como a polícia, por exemplo, no entanto as práticas abusivas devem ser combatidas. “A polícia é um órgão fundamental para a sociedade. Mas tem de combater a disseminação de práticas discriminatórias dentro das instituições, impedindo que o jovem negro seja vítima constante de violência”, afirma o professor.
Auto de Resistência
Um instrumento criado na ditadura militar, conhecido como Auto de Resistência, deu à polícia plenos poderes para atuar em práticas de repressão sem a necessidade de investigação das mortes. “Com isso, qualquer pessoa pode ser julgada pela própria polícia e receber sentença de morte”, diz o secretário Pereira.
A resolução 08/2012, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, vem combatendo essa forma de violência com o impedimento do uso da expressão “auto de resistência” nos registros policiais, boletins de ocorrência e inquéritos policiais. Com isso, seria possível identificar as causas de todas das mortes cometidas por policiais em trabalho, sem exceção, inibindo assim práticas de extermínio, execução extrajudicial e a injustiça também contra outros policiais.
Tramita no Congresso Nacional, ainda, o Projeto de Lei nº 4471/12, de autoria do deputado federal Paulo Teixeira (PT), que altera o Código Penal e põe fim aos “autos de resistência”, uma antiga demanda do movimento negro, fundamental no enfrentamento da impunidade nos casos de violência cometidos pelo Estado.
O projeto está na agenda de votação da Câmara dos Deputados desde agosto e, quando aprovado, garantirá, se não o fim da violência, ao menos a investigação da causa das mortes.
“O projeto pode ser visto como essencial para a preservação da legitimidade das instituições perante a população e abre a perspectiva de controle social para qualquer órgão público. Qualquer uso de violência pela autoridade policial terá de ser apurado. Isso vai permitir que a população separe uma minoria de funcionários de uma maioria que executa sua função adequadamente”, explica Pereira.
Acesso à Justiça
Diversas ações estão sendo voltadas para mudar a realidade social do negro no Brasil e emancipá-lo com os mesmos direitos e espaços na sociedade e no âmbito do poder. Nesse aspecto, é importante que esse segmento tenha seus direitos garantidos, principalmente nos casos de violência.
O Protocolo de Atuação para a Redução da Barreira de Acesso à Justiça para a Juventude Negra em Situação de Violência foi assinado entre o Ministério da Justiça e a Presidência da República em outubro e, agora, estimula-se também a adesão dos estados e municípios.
“Não bastam as políticas afirmativas de garantia de inclusão dos negros na sociedade, precisamos também ter ações que operem para alterar os mecanismos que o racismo produz e interditam a ascensão das pessoas negras”, afirma o coordenador Freitas.
Para a coordenadora da SNJ estamos diante de um problema urgente que precisa ser enfrentado por toda a sociedade. “A privação à vida é uma das maiores violências que um ser humano pode passar. Esse não é um problema da juventude, é um problema da sociedade brasileira, que infelizmente se revela, em sua parte mais perversa, contra a juventude negra que está morrendo. 
Não podemos mais não olhar para esse fato”, conclui Fernanda Papa.

Michelle Rusche