quinta-feira, 28 de julho de 2016

O Mito acerca da guerreira Acotirene

Na história do Quilombo dos Palmares estão presentes mitos e fatos reais. Essa mescla de informações é resultado da postura ideológica dos segmentos sociais que se envolveram no passado com esse fato histórico, e daqueles que, no presente, procuram resgatar a história do negro a partir da perspectiva dos vencidos.
A história de Acotirene exemplifica bem essa visão mítica e real do Quilombo dos Palmares. Enquanto mito, era a conselheira de todos os Palmarinos; como fato real, seu nome foi dado a um importante mocambo. Acotirene era um dos Mocambos do Quilombo dos Palmares, instalado no litoral dos Estados de Pernambuco e Alagoas, em homenagem a uma das primeiras mulheres que habitou o Quilombo dos Palmares e que exerceu grande influência na vida dos negros quilombolas.
O mito conta que Acotirene chegou à Serra da Barriga – primeiro povoado quilombo – antes de Ganga-Zumba assumir o poder. Ela era a matriarca do Quilombo dos Palmares, exercia a função de Mãe e Conselheira dos primeiros negros refugiados na Cerca Real dos Macacos – Serra da Barriga.
Quando Ganga-Zumba assumiu o poder, Acotirene não perdeu a função de Conselheira. Era consultada sobre todos os assuntos, desde as questões familiares até as decisões político-militares.
Mesmo morta, segundo conta o mito, Acotirene aparecia aos chefes quilombolas para orientá-los nas dificuldades ou nas decisões a serem tomadas.
O mocambo de Acotirene ficava situado no norte do Quilombo dos Palmares, a 21 léguas do povoado de Porto Calvo, entre os mocambos de Amaro, Damba-banga, Zumbi e Tabocas. Pela situação geográfica, esse mocambo tinha a função agrícola, na organização do Quilombo dos Palmares. (segundo o Dicionário de Mulheres de Alagoas: Ontem e Hoje).
Fonte: ABC das Alagoas, Francisco Reynaldo Amorim de Barros – http://www.abcdasalagoas.com.br/
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segunda-feira, 11 de abril de 2016

Porque as Mulheres Negras marcharam no 18 de novembro de 2015?


A Marcha das Mulheres Negras Brasileiras tinha como lema o Combate ao Racismo, a Violência e pelo Bem Viver.
As estatísticas e dados produzidos pelas diversas pesquisas no Brasil mostram que as mulheres, de uma maneira geral, são as que possuem pior acesso as políticas públicas e ao mercado de trabalho. NO caso da Mulher Negra esse panorama é muito pior.
Somos as mulheres, que apesar de toda nossa qualificação e nível acadêmico, temos os piores salários do mercado. Um homem branco, dependendo da profissão, e ocupando o mesmo cargo que uma mulher negra, pode ganhar até 18% a mais que ela.
No Sistema de Saúde, o Racismo Institucional e pessoal pune e exclui as mulheres negras de forma perversa. Enquanto as mulheres brancas realizam cerca de 7 pré natais, a mulher negra tem em média 4,5 feitos. A quantidade de anestesia dada na hora do parto é cerca de 40% menor que das brancas, pelos estereótipos de que as negras são mais fortes e aguentam melhor a dor. E não estou falando sem base científica, basta consultar o Mapa da Violência, edição especial dedicada as mulheres.
Somos nós que enchemos as penitenciárias femininas, e que somos nesse momento abandonadas a própria sorte. Somos nós que sofremos a maior parte da violência doméstica praticada contra as mulheres no Brasil. Somos nós as chefes de família que sustentamos nossos filhos sozinhas e ainda temos que lidar com o abandono parental.
Mas principalmente somos nós que recolhemos os corpos dos nossos filhos e filhas mortos pela polícia e pelo racismo brasileiro. O Espírito Santo é o segundo estado da federação que mais mata jovens negros.
O Bem viver para todas nós significa a luta diária e resiliente contra o racismo. 
A possibilidade da casa própria, da agricultura familiar com DAP da mulher, com salários justos e iguais, com acesso as universidades públicas, com políticas de Ação Afirmativa que realmente nos incluam como cidadãs após 4 séculos de exclusão estatal.


É por isso e muito mais que marchamos no dia 18/11 e que 
CONTINUAMOS EM MARCHA.

Leonor Araujo
Presidenta Nacional do Instituto Ganga
Do Núcleo Nacional Impulsor da Marcha das Mulheres Negras
Articulação Nacional de Mulheres Negras Brasileiras.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Quilombos sofrem com perda de território e demora no processo de regularização fundiária.

Wallace Oliveira



“O reconhecimento significa o início de uma liberdade tardia” | Foto: Noronha Rosa

Quilombos sofrem com perda de território e demora no processo de regularização fundiária.
No limite entre Belo Horizonte e Santa Luzia (MG), habita um povo que surgiu antes de que a cidade existisse. A comunidade quilombola Mangueiras é formada por 35 famílias que descendem de Maria Bárbara, trabalhadora negra que nasceu por volta de 1863. Vivem há mais de 150 anos na Mata do Izidoro, área coberta por vegetação nativa, fauna e nascentes, que os moradores têm preservado desde que lá chegaram.
Comunidade de Mangueiras conquista o reconhecimento de suas terrasNo dia 14 de janeiro, foi dado um grande passo na proteção do território dessa comunidade. Uma portaria do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), publicada no Diário Oficial da União (DOU), reconheceu as terras do quilombo.
“É uma conquista importante, mas não significa que a comunidade já tenha o título das terras porque, a partir de agora, começa um longo processo de desintrusão. Se tiver alguém de outra área, tem que tirar, pagar indenizações, e isso pode demorar”, explica Lilian Gomes, pesquisadora da Universidade Federal de Minas Gerais.
“Para nós, quilombolas, o reconhecimento de nossas terras significa o fim da segunda escravidão e o início de uma liberdade tardia. Dizem que a escravidão terminou em 1888, mas a libertação foi assinada a lápis. Com a conquista da terra, ela começará a ser escrita a caneta”, comenta o presidente da Associação do Quilombo de Mangueiras, Maurício Moreira.
Perda de território
O território original do Quilombo Mangueiras era de 387 mil metros quadrados, mas, ao longo do tempo, foi reduzido a 18,6 mil, área reconhecida pelo Incra. A perda de terras começou na década de 1920, com a construção da MG-20 e de uma estrada que levava a um sanatório. Entre 1928 e 1932, outra porção foi dividia, passando às mãos da família Werneck. Já nos anos 50, a edificação de conjuntos habitacionais provocou nova diminuição das terras da comunidade.
A partir de 2006, com a duplicação da rodovia e a construção da Linha Verde, aumentou a pressão da especulação imobiliária. A Operação Urbana do Izidoro, conduzida pela Prefeitura de Belo Horizonte, prevê a ocupação verticalizada da região, com a construção de apartamentos financiados principalmente pelo programa Minha Casa Minha Vida.
Quilombos em MG
Em MG existem mais de 500 comunidades quilombolas | Foto: Reprodução/Incra
De acordo com o Centro de Documentação Eloy Ferreira da Silva (Cedefes), só em Minas Gerais, existem mais de 500 comunidades quilombolas. Apenas o quilombo de Porto Corís, no Vale do Jequitinhonha, recebeu o título de suas terras, mas o território foi inundado pela Barragem de Irapé.
Em BH, além de Mangueiras, há outros dois quilombos urbanos: Manzo Ngunzo Kaiango, que fica no alto do bairro Santa Efigênia, e Luízes, no Grajaú. Neste último, a comunidade possuía o documento de compra, mas o território foi tomado pela Prefeitura e por grandes empreendimentos imobiliários.  Os quilombolas aguardam o processo de titulação que, segundo eles, é lento e não tem levado em conta as reivindicações da comunidade: “Dez propriedades foram excluídas do processo sem o nosso consentimento, embora seja um direito nosso determinar qual é o perímetro”, afirma a quilombola Miriam Aprigio Pereira.

sábado, 30 de janeiro de 2016

O Fim da SEPPIR, o Movimento Negro e a Crise.



No dia 02/10 a já esperada reforma administrativa foi anunciada pela presidenta Dilma Rousseff, a partir da unificação entre Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM), a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) e a Secretaria de Direitos Humanos (SDH) se formou o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos. Como resposta a crise. 
A política de enxugar os gastos do governo não por um acaso esbarra na SEPPIR.
A relação do Partido dos Trabalhadores com o movimento negro e com uma estratégia capaz de combater seriamente o racismo hoje mostra sua verdadeira cara já nos primeiros ajustes governamentais da crise. A pergunta é, o que iremos fazer a partir dessa experiência de 12 anos de PT e de suas políticas para os negros e negras no país?
Criada Há12 anos, no inicio do governo PT a Secretária foi fruto de uma longa luta dentro e fora do partido, e é preciso entendê-la de forma dialética (e tentarei me esforçar para que o seja) para que possamos pensar nos novos desafios colocados pra nós, negros que queremos avançar no combate ao racismo.
Primeiramente é importante colocar que o movimento negro desta Frente Negra Brasileira sempre entendeu a importância da sua participação no governo, como esse movimento nunca foi homogêneo, a própria idéia de se inserir no governo tinha ligação com diversas estratégias de diferentes setores, o que também diferencia o papel do negro nesse Estado, que é burguês e que defende o interesse de uma classe.
Se pensarmos na própria história do PT, onde setores do Movimento Negro confluíram com o movimento operário, estudantil e intelectual. Poderemos perceber que só através das lutas que se estendem desde sua criação foi possível em 2002 a primeira elaboração de um programa para a presidência que se tratava da questão negra (“Caderno - Programa Brasil Sem Racismo”). Então, apesar do partido sempre ter apoiado a luta contra o racismo e fazer parte do movimento negro, inclusive ainda hoje dirigir e ter importante influencia na direção de organizações, muitos militantes apontaram na história que questão negra era secularizada no partido.
Pois bem, com a eleição de Lula, em 2003 uma parcela importante do movimento negro acaba entrando no aparato estatal (como ministros, nos conselhos e etc.) e assim se dá a tentativa de enegrecer a cara das políticas do governo. É importante ressaltar que a incorporação de negros nos governos não foi uma novidade desse período mas vem de um processo anterior que vem desta democratização onde os governos vão de alguma forma abrindo canais de dialogo com o Movimento Negro, como forma de tentar principalmente cooptar as suas lideranças. A partir de Lula essa política só eleva de nível colocando boa parte dos quadros do movimento negro dentro de seu governo.
Se por um lado essa integração é parte da exigência de setores do movimento negro, inclusive a possibilidade de ter um órgão especifico nacional que pense, elabore e acompanhe políticas contra o racismo, por outro essa integração é parte de um processo que acabou gerando certa desorganização do próprio movimento. Mas como assim?
Precisamos pensar em que contexto existe a SEPPIR. 
A sua ligação ao governo e também a sua dependência da verba do Estado gera uma relação em que ao mesmo tempo que deve responder aos anseios dos negros brasileiros, expressos principalmente pelas pautas do movimento negro, por outro lado há uma grande pressão (quase uma imposição) em seguir a política do partido da ordem, já que é o presidente que indica sua direção. Esse movimento, onde a pressão do governo tem sido muito maior do que qualquer outra, acaba fazendo com que essa secretária tenha que assumir um posto de defensora da política demagógica e restrita do governo, contendo o movimento negro com as pequenas negociações de concessões que o governo permite.
A então nomeada Chefa do novo ministério Nilma Lino em sua primeira aparição falando sobre essa mudança já é uma clara representação do que coloco acima. Enquanto vários setores do movimento negro dizia não ao rebaixamento da SEPPIR e sua unificação (“NENHUM DIREITO A MENOS, DEMOCRACIA SE FAZ COM DIÁLOGO E PARTICIPAÇÃO”) Nilma declara em entrevista que: “Acho que a minha indicação é a expressão do compromisso da nossa presidenta, do compromisso do governo federal com os movimentos sociais, com uma parcela da população que apoia esse governo, que está junto conosco, que é beneficiado pelas nossas políticas, de mostrar que o Estado brasileiro incorpora sua diversidade também na forma como compõe o seu primeiro escalão”
Outro exemplo de como isso se dá na prática é a própria criação do “Estatuto da Igualdade Racial” que completa 5 anos. Um processo onde grande parte do movimento negro investiu esforços se mostrou um grande golpe. No final de todo o processo de negociação e muita disputa política foi aprovado um estatuto que tinha um caráter autorizativo, ou seja um documento com normas não obrigatórias que não previa recursos para a implementação de políticas afirmativas nem para seu monitoramento.
Esse Estatuto não pensa na política mais importante pra nossa juventude negra que é o genocídio, e acho que o fruto disso temos visto hoje com o aumento da morte de nossos irmãos enquanto o índice de morte da juventude branca diminuiu. Podemos dar outros exemplos como a não garantia da titulação das terras quilombolas e etc. Mas isso significa que a partir disso não houve avanços em nada no combate ao racismo?
Onde percebo o maior avanço nas políticas raciais é no que diz respeito às ações afirmativas, é claro que houveram outros avanços mas ainda muito pequenos perto inclusive das expectativas dos negros com um governo que seria dos trabalhadores e dos oprimidos. E é claro que esses avanços não são frutos da bondade do governo, ou de seu compromisso com os negros e negras, mas são concessões que esse teve que dar por conta da mobilização do movimento negro em conjunto com outros movimentos sociais.
Ao mesmo tempo não podemos deixar passar despercebidos que algumas das políticas do governo por conta da necessidade de ter que também da resposta a burguesia, auxiliaram com algumas aspas os negros e negras, um exemplo claro disso é o Pro Uni (Programa Universidade para Todos) e o FIES que são claras tentativas de salvar o bolso dos grandes empresários da educação superior preenchendo as vagas ociosas em universidades particulares. Bom, o resultado dessas políticas estamos vendo agora com o processo de crise que tem feito milhares terem que abandonar seu sonho de terminar uma graduação pois não conseguiu o prosseguimento do Financiamento.
Esse processo é um marco importante na experiência do movimento negro com o parlamento, com o governo do Partido dos Trabalhadores e com a própria democracia burguesa. Se aos primeiros sinais da crise o governo federal já dá claros indícios de que lado vai ficar, de qual será a importância da questão racial e como se dará a relação com os trabalhadores e a juventude, nós precisamos unir forçar para que primeiramente seja possível defender nossas conquistas, e nos defender contra os ataques dos setores conservadores e também do governo do Partido dos Trabalhadores.
Num momento de crise, o Estado, balcão de negocio da burguesia precisa trabalhar para garantir que os capitalistas não tenham que pagar por ela, para isso alguém terá que pagar, seja pela redução da maioridade penal, aumento de impostos, ataque aos direitos trabalhista, aumento da repressão etc. Não podemos ter duvida, somos nós os primeiros e os mais atacados, eles vão querer atacar qualquer política que com anos de luta conseguimos arrancar.
Nesse momento é preciso avançar, de preferência a passos largos. Esse é o momento onde já é possível e mais do que isso é extremamente necessário fazer um balanço estratégico do que significou esses 12 anos de governo PT, desses 30 anos de “democracia” pós ditadura para que possamos avançar numa luta consequente contra o racismo e para que não paguemos pela crise.
Precisamos construir no movimento negro um polo de unidade que aglutine todos os setores antigovernistas para combater a bancada conservadora, mas também para ter autonomia para levar a frente a defesa das demandas do nosso povo. Organizando a luta em conjunto com outros setores contra os ataques da crise, colocando sempre as necessidades dos negros e negras e principalmente impondo a discussão racial em todas as lutas e em todos os espaços. Afinal, o combate ao racismo deve sim ter como protagonistas os negros organizados, mas é preciso colocar nossa luta na altura de importância que ela tem.
É preciso que atuemos em todos os lugares onde estamos seja locais de estudo, trabalho ou moradia de forma organizada ligando cada atuação a um plano do movimento para mobilizar e lutar. Precisamos colocar a nossa luta na ordem do dia, a construção social e econômica do nosso país nos coloca uma importante tarefa de responder as necessidades de nosso povo, já que é impossível uma verdadeira transformação social sem nós, sem levar a sério a luta negra!
Somo um setor determinante na luta de classes no país, se é verdade que o que vivemos historicamente é setores da esquerda e da direita usar nossas pautas, e cooptar nossos quadros não por querer responder de forma consequente as nossas demandas, mas sim para usar nossa mobilização e força como massa de manobra também é verdadeira a urgência de nos organizarmos.
Não estou querendo apagar a história do movimento negro, mas é preciso sim fazer um balanço dos erros históricos, superar ideias e vícios que não nos ajudaram a avançar, ver quais ideias nos servem, até porque se o movimento negro não é homogêneo sua história também não é. O que levanto é a necessidade de avançar, a história não espera, os ataques estão vindo, nossos irmãos estão morrendo, sendo presos, demitidos e etc.
 O que iremos fazer?
Os caminhos só podem ser traçados a partir de organização ou reorganização do movimento negro. As experiências das políticas raciais do governo mostram centralmente que sem uma política de independência de classe, de autonomia é impossível levar a frente nossas demandas que são inúmeras, por isso é urgente balanços, organização e estratégia para levar a frente nossa luta e principalmente para resistir a essa crise.
Os artigos da sessão Tribuna aberta não expressam a opinião da linha editorial do Esquerda Diário.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

O que é o Natal?

Claudia Vitalino.
UNEGRO/RJ


É meio cliché -  O verdadeiro espírito de natal começa em cada um de nós, depende da nossa vontade de fazer felizes quem nos rodeia, depende do nosso empenho para ajudar quem mais precisa e depende da nossa criatividade para mudar o mundo! Acredito que não devemos ter limites, que devemos sonhar ao máximo e dar o nosso melhor em tudo e, claro, partilhar com todos os que estão à nossa volta. Por isso, hoje quero mostrar-vos uma iniciativa que me chamou a atenção.

Se liga: Nem todas as pessoas comemoram o Natal no dia 25 de dezembro. 


Algumas culturas, nem sequer comemoram o Natal, como referência ao nascimento de Jesus Cristo (ou Jesus de Nazaré).

- Natal é um feriado e festival religioso cristão originalmente destinado a celebrar o nascimento anual do Deus Sol no solstício de inverno e adaptado pela Igreja Católica, no terceiro século d.C., pelo imperador Constantino para comemorar o nascimento de Jesus de Nazaré.

Porém, nem todas as culturas absorveram a tradição de celebrar o dia 25 de dezembro, seja como uma homenagem ao nascimento de Jesus, ou, pela adoração da passagem do sol ao redor da Terra.

Algumas culturas que não comemoram o Natal como uma data primordial em seu calendário:

Islamismo

Ao contrário das religiões cristãs - para as quais Jesus é o Messias, o enviado de Deus - o islamismo dá maior relevância aos ensinamentos de Mohamad, profeta posterior a Jesus (que teria vivido entre os anos 570 e 632 d.C.), pois este teria vindo ao mundo completar a mensagem de Jesus e dos demais profetas.

Em relação à celebração do Natal, os muçulmanos mantêm uma relação de respeito, apesar de a data não ser considerada sagrado para o seu credo.

Para os muçulmanos, existem apenas duas festas religiosas: o Eid El Fitr, que é a comemoração após o término do mês de jejum (Ramadan) e o Eid Al Adha, onde comemoram a obediência do Profeta Abraão a Deus.

Judaísmo

Os judeus não comemorem o Natal e o Ano Novo na mesma época que a grande maioria dos povos, mas para eles, o mês de dezembro também é de festa. Apesar de acreditarem que Jesus existiu, os judeus não mantêm uma relação de divindade com ele.

Na noite do mesmo dia 24 de dezembro os judeus comemoram o Hanukah, que do hebraico significa festa das luzes. Esta data marca a vitória do povo judeus sobre os gregos conquistada, há dois mil anos, em uma batalha pela liberdade de poder seguir sua religião.

Apesar de não ser tão famosa no Brasil, a festa de Hanukah, que, tradicionalmente, dura 8 dias, em outros países é tão "pop" como o Natal. Em Nova Iorque, por exemplo, as lojas que vendem enfeites de Natal também vendem o menorah (candelabro de 8 velas considerado o símbolo da festividade judaica). "Para cada um dos 8 dias acendemos uma vela até que o candelabro todo esteja aceso no último dia de festa", explica o rabino.

O peru e bacalhau típicos do Natal católico são substituídos por panquecas de batata e bolinhos fritos em azeite. E em vez de desembrulharem presentes à meia-noite, as crianças recebem habitualmente dinheiro.

Budismo

Não há envolvimento do budista com a característica particular da comemoração do Natal do mundo ocidental, ou seja, da comemoração do nascimento de Jesus Cristo. Mas, os budistas admiraram as qualidades daqueles que lutam pela humanidade e, por isso, respeitam a tradição já estabelecida, respeitando a figura de Jesus Cristo, que para eles é considerado um “Bodhisattva” – um santo ou aquele que ama a humanidade a ponto de se sacrificar por ela. Para os budistas ocidentais, o dia 25 de Dezembro tem um cunho não cristão, mas sim, espiritual.

Protestantismo

Embora seja uma religião cristã, é subdividida em diversas “visões” da Bíblia. Algumas comemoram o Natal como os católicos, outros buscam na Bíblia e no histórico religioso, cuja data de nascimento de Cristo é discutida, um fundamento para não comemorar a data tal como é comemorada no catolicismo. É o caso das testemunhas de Jeová, por exemplo. Já a Assembleia de Deus e a Presbiteriana comemoram o Natal com o simbolismo da presença de Cristo entre os homens, onde a finalidade é levar a uma instância reflexiva a respeito de Cristo. Festejar condignamente o Natal é uma bênção e inspiração para todos quantos nasceram do Espírito ao tornarem-se filhos de Deus pela fé em Cristo, para os evangélicos.

Afro-Brasileiras (Candomblé e Umbanda)

Yemanjá, Yansã e Oxum são entidades comemoradas ao longo do ano nas religiões afro-brasileiras, que têm no mês de dezembro um simbolismo todo especial. Mas para os umbandistas a comemoração do natal cristão é algo mais natural, porque a maioria dos seus seguidores e médiuns praticantes veio da religião cristã. A umbanda encontrou um lugar para Cristo no rol de suas divindades – ele é associado a Oxalá, considerado o maior Orixá de todos. No dia 25 de dezembro, os umbandistas agradecem à entidade que, segundo a sua crença, comanda todas as forças da natureza.

Alguns terreiros de Candomblé também oferecem algum ritual especial à data, mas a prática não configura uma passagem obrigatória em todos os centros.

Hinduísmo

As mais importantes celebrações do hinduísmo são ocorridas na Índia, por meio da Durga Puja, o Dasara, o Ganesh Puja, o Rama Navami, o Krishna Janmashtami, o Diwali, o Holi e o Baishakhi. O Durga Puja é a festa da energia divina. Já o festival de Ganesh é celebrado nos estados do sul da Índia, com danças alegres e cantos. O Diwali é o “festival das luzes” em que em cada casa, em cada templo são colocadas milhares e milhares de luzes, acesas toda a noite. O significado destas festas é adorar a Energia Divina.

Taoísmo

O taoismo, religião majoritariamente vista na China, não tem qualquer celebração no Natal.
No entanto, a religião tem inúmeras datas onde se comemora o nascimento de grandes mestres ou sua ascensão. O Ano Novo Chinês, assim como no budismo, é a data mais comemorada para os taoístas. Nesse dia se celebra o Senhor do Princípio Inicial.


 "NATAL, CULTURAS QUE NÃO COMEMORAM O NATAL,
 QUEM NÃO COMEMORA O NATAL, HINDUÍSMO, BUDISMO, CATOLICISMO, PAGÃO,
COMEMORAÇÃO DO NATAL, 
PORQUE COMEMORAR O NATAL, 25 DE DEZEMBRO, FESTAS NO 25 DE DEZEMBRO, PARTICULARIDADES DO NATAL, ISLAMISMO, JUDAÍSMO, PROTESTANTISMO, AFRO-BRASILEIRAS, CANDOMBLÉ,UMBANDA, TAOISMO."



Natal afro americano....
O natal de muitos Afro-americanos é comemorado em 26 de dezembro, nesta data muitos comemoram o Kwanzaa, uma festa que se originou na época do movimento pelos direitos civis na década de 1960. Uma comemoração do patrimônio da Afrohumanidade. Kwanzaa uma palavra africana da língua suaíli idioma banto com o número maior de falantes. Na África tradicional Kwanzaarepresenta as primeiras colheitas; na América do Norte e Caribe os participantes dessa festa são afrodescendentes.

Esta celebração está a espalhar-se lentamente pelos Estados Unidos, Canadá, Inglaterra e Caribe e já se podem enviar postais a desejar “Feliz Kwanzaa”. Toda a celebração e os rituais da Kwanzaa foram concebidos após as famosas e terríveis revoltas de Watts, em 1966. Ele buscou em remotas tradições africanas valores que fossem cultivados pelos afro-americanos naqueles terríveis dias de lutas pelos direitos civis, de assassinatos de seus principais líderes e que, não sendo religiosos, pudessem atrair - como atraíram - todas as Igrejas Negras em todo o país e, no futuro, pelo mundo afora. O Kwanzaa foi idealizado por Maulana Karenga, que organizou a Kwanzaa em torno de 5 atividades fundamentais, comuns às celebrações africanas da colheita das primeiras frutas:
a reunião da família, de amigos, e da comunidade;
a reverência ao criador e à criação, destacadamente a ação de graças e a reafirmação dos compromissos de respeitar o ambiente e "curar" o mundo;
a comemoração do passado honrando os antepassados, pelo aprendizado de suas lições e seguindo os exemplos das realizações da história;
a renovação dos compromissos com os ideais culturais mais altos da comunidade como a verdade, justiça, respeito às pessoas e à natureza, o cuidado com os vulneráveis e respeito aos anciões; a celebração do "Bem da Vida" que é um conjunto de luta, realização, família, comunidade e cultura. Karenga, diz que, "a Kwanzaa é celebrada através de rituais, diálogos, narrativas, poesia dança, canto, batucada e outras festividades".

 O Kwanzaa envolve a reflexão sobre a valorização da comunidade, das crianças e da 
Vida. Estas atividades devem demonstrar os sete princípios, Nguzo Saba em suaíli
:
1.umoja (unidade)
2.kujichagulia (autodeterminação)
3.ujima (trabalho coletivo e responsabilidade)
4.ujamaa (economia cooperativa)
5.nia (propósito)
6.kuumba (criatividade)
7.imani (fé)


A cada dia uma vela de cor diferente deve ser acesa num altar onde são colocadas frutas frescas, uma espiga de milho por cada criança que houver na casa. Depois de acesa a vela, todos bebem de uma taça comum em reverência aos antepassados, e saúdam com a exclamação “Harambee”, que tanto significa "reúnam todas as coisas" como "vamos fazer juntos". A grande festa é a de 1 de janeiro, quando há muita comida, muita alegria e onde cada criança deve ganhar três presentes que devem ser modestos: um livro, um objeto simbólico e um brinquedo.

Criado como um ritual para a época da colheita e usando a língua suaíli, Kwanzaa dura uma semana, durante o qual os participantes se reúnem com a família e amigos para trocar presentes à luz de uma série de velas pretas, vermelhas e verdes que simbolizam os sete valores básicos dos Afro-americanos vida familiar que é a unidade, autodeterminação trabalho coletivo e responsabilidade, economia cooperativa, propósito criatividade e fé. 

Os dias que antecederam a Kwanzaa são para decorar a casa com enfeites de papel preto, vermelho e verde. Nesta festa se ensina a criança sobre sua cultura e historia. Eles colocam fotografias da atual geração da família. A celebração dura sete dias e termina com 
uma festa que tem alimentos africanos, e muita música. No final da festa, quando todos tiverem terminado de comer, eles todos se levantam, se comprometam com os sete princípios do Kwanzaa. 

Um afro abraço e  Feliz Kwanzaa !!! 
fonte:KWANZAA.COM-www.ebc.com.br/cultura


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Postado por UNEGRO/Rio de Janeiro no UNEGRO- RIO DE JANEIRO em 12/24/2015 02:03:00 AM

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

O primeiro negro presidente do Brasil

Nilo Peçanha, o primeiro negro presidente do Brasil (1867-1924)


Nilo Peçanha chegou à presidência do Brasil menos de 20 anos após a libertação dos escravos em 1889. A proeza de Nilo Procópio Peçanha é bem maior que seu colega Luiz Ignácio Lula da Silva, eleito em 2002 e porque não dizer do presidente americano Barak Obama. Embora muitas vezes fosse retratado como branco era mulato, sendo, inclusive, "embranquiçado" nas fotos.

Nilo nasceu no dia 02 de outubro de 1867, na Fazenda do Desterro, no limite com o Espírito Santo, município de Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro, filho de Sebastião de Sousa Peçanha e Joaquina Anália de Sá Freire Peçanha. Nilo Peçanha ou o “Menino da Padaria”, como era conhecido (devido ao seu pai ter um comércio de padaria), viveu seu início de vida num sítio em Morro do Coco, onde cresceu ouvindo histórias da negra Delfina, que falava do sofrimento dos escravos.

De origem humilde, Peçanha construiu uma sólida carreira política, ascendendo, em um intervalo de poucos anos, de senador a presidente do estado do Rio de Janeiro – nome da época para o cargo de governador – e a presidente do Brasil.

Nilo não foi eleito diretamente, assumiu a presidência com a morte de Afonso Pena, de quem era vice. Exerceu o cargo de 14 de junho de 1909 a 15 de novembro de 1910. 
 
Quando chegou à idade escolar a família se mudou para Campos, onde Nilo foi matriculado no Liceu de Humanidades de Campos. Formou-se na Faculdade de Direito do Recife já com vinte anos de idade. Numa viagem de trem de Campos para o Rio de Janeiro, o jovem Nilo conheceu e de apaixonou perdidamente por uma jovem de nome Anita Castro Belisário de Sousa, com a qual se casou no dia 06 de dezembro de 1895. Dos três filhos que teve nenhum conseguiu chegar à fase adulta.

Anita era descendente de uma rica família de Campos. O casamento foi um escândalo social, pois a noiva teve que fugir de casa para poder se casar com um sujeito pobre e mulato.

No mesmo em que se casou, Peçanha ajudou a fundar o Clube Republicano de Campos, do qual foi presidente, bem como do Partido Republicano. Após a instauração do regime republicano em 15 de novembro de 1889, Nilo intensificou sua atividade político-partidária e foi eleito deputado, participando da Assembléia Constituinte responsável pela primeira Constituição republicana de 1891.

Foi eleito em sucessivos pleitos e em 1903 foi eleito para deputado federal, quando assumiu uma cadeira no Senado. Em 1903, renunciou à sua vaga na Câmara Alta para assumir a Presidência do Estado do Rio de Janeiro, que exerceu até 1906. Neste ano, foi eleito Vice-Presidente de Afonso Pena.

Em 1909, devido à morte de Afonso Pena, Nilo Peçanha tornou-se Presidente da República. Nilo estava com 42 anos ao assumir a Presidência da República.

Em seu governo recriou o Ministério da Agricultura, órgão que aglutinou os grupos regionais dissidentes. Introduziu importantes alterações no funcionamento do Estado, o que representou uma obra de grande alcance. Criou Lei permitindo, pela primeira vez, o trabalho feminino nas repartições públicas. Criou o Imposto Territorial, criou o Ensino Técnico-profissional (com as Escolas de Aprendizes de Artífices), o Serviço de Inspeção Agrícola, a Diretoria da Indústria Animal, a Diretoria de Meteorologia e o Serviço de Proteção ao Índio.

Faleceu em 1924, no Rio de Janeiro, afastado da vida política e foi sepultado no Cemitério de São João Batista.




Fonte: Presidentes do Brasil, Editora Rio.
FONTE: http://institutohistoriar.blogspot.com/2008/09/srie-presidentes-do-brasil_21.html

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Um pouco de Dandara

Novembro é oficialmente o Mês da Consciência Negra no Brasil. Apesar de ser importante e necessária, especialmente por se tratar de um país que teve séculos de escravidão de pessoas negras, essa data ainda é bastante incômoda para uma parcela da população. Mesmo assim, o mês de novembro mobiliza o movimento negro e desperta um interesse temporário nas escolas, instituições e noticiários, que costumam abordar o tema do racismo superficialmente no período próximo ao dia 20.
Aqueles que falam dessa data muitas vezes se recordam de Zumbi dos Palmares, que é o grande ícone da luta contra o racismo por sua resistência contra a escravidão. Mesmo na escola, muitos ouvimos falar de Zumbi e aprendemos que ele foi líder do Quilombo de Palmares, onde negras e negros que fugiam da escravidão podiam encontrar refúgio e organização política. No entanto, pouquíssimos sabem de quem se tratava Dandara dos Palmares, uma figura tão importante quanto Zumbi.
Dandara foi esposa de Zumbi e, como ele, também lutou com armas pela libertação total das negras e negros no Brasil; liderava mulheres e homens, também tinha objetivos que iam às raízes do problema e, sobretudo, não se encaixava nos padrões de gênero que ainda hoje são impostos às mulheres. E é precisamente pela marca do machismo que Dandara não é reconhecida ou sequer estudada nas escolas. Lamentavelmente, nem mesmo os movimentos negro e feminista mencionam Dandara com a frequência que deveriam. De um lado, o machismo, que embora conte com o trabalho árduo das mulheres negras, não lhes oferece posição de destaque e voz de decisão. Do outro, o racismo, que só tem memória para mulheres brancas.
Nós, mulheres negras, crescemos sem nos encontrarmos nos livros de história, poesia, literatura ou sociologia. O machismo racista da sociedade parece nos dizer que não temos o direito de encontrar representatividade e inspiração para rompermos as amarras da discriminação institucional. Muitas sabemos de Dandara e outras mulheres negras importantes somente devido a nossas próprias pesquisas solitárias, ávidas por descobrir. E, infelizmente, somos nós as mesmas pessoas que lutam para que essas mulheres não sejam apagadas da história.
Alguns pesquisadores, como o professor Kleber Henrique, que escreveu este belíssimo texto sobre Dandara, evidenciam o papel dessa grande líder e falam de sua sede por liberdade. Mas salientam que até hoje não se tem conhecimento de como era o seu rosto ou de onde veio. Se Dandara fosse uma mulher negra contemporânea, provavelmente seria mal vista por todos que se negam a enxergar o racismo. Dandara não queria acordos pela metade e nem se vendia em troca de libertação parcial. Morreu como a heroína que foi em vida e, graças à sua luta, hoje temos força para continuar a batalha contra o racismo brasileiro.
Portanto, me recuso a aceitar que Dandara seja figura esquecida ou que continue sendo lembrada sob a sombra masculina de Zumbi. A mulher negra quer e conquista seu espaço, pois tem força, inteligência e capacidade para romper com paradigmas machistas e racistas. O mês da Consciência Negra precisa ser cada vez mais o mês de Dandara dos Palmares, da autonomia absoluta da mulher negra e da completa liberdade feminina, que protagoniza as trincheiras da resistência contra a discriminação por cor e gênero. Dandara vive.
Conheça o livro As Lendas de Dandara: www.aslendasdedandara.com.br

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Conversa di Preto

ESCRAVIDÃO E REPRODUÇÃO: A MULHER PRETA E O ESTUPRO
Por Walter Passos - Historiador
E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br 

É deveras incomodativo para os historiadores pretos que escrevem sobre a escravidão o assunto da reprodução, ao passo que enquanto estamos reconstruindo a nossa própria história nos deparamos com a indústria do estupro.
O homem preto foi utilizado como reprodutor, vitimando a mulher preta. Estupro forçado pelos senhores e senhoras brancos cristãos. Não somente escravizados foram usados para a reprodução, muitos senhores violentavam as escravizadas, entre eles, padres.
Os nossos ancestrais prisioneiros da mais violenta e genocida guerra da história mundial eram tratados como mercadorias em uma fabrica de bebês para aumentar a riqueza dos donos de escravizados.
A escravidão não havia a conceituação que temos hoje de estupro ou de violações, para o escravizador, os escravizados eram bens móveis sub-humanos, não possuíam direitos e eram considerados coisas, propriedades.
Há diversos relatos na historiografia de casamentos entre escravizados e também de separação de famílias, dependia dos interesses econômicos dos senhores. Possuir escravizados dóceis com laços familiares era interessante como chantagem emocional e controle para fugas e rebeliões. Encontrei comunidades oriundas de senzalas no estado da Bahia, formada exclusivamente por famílias há diversas gerações, quando fiz o primeiro mapeamento sistemático de quilombos baianos e publiquei o livro: Bahia: Terra de Quilombos em 1996.
Alguns fatores podem ser pontuados para a prática da reprodução, sendo bom ressaltar que uma mulher escravizada tinha o valor de dois homens escravizados, porque ela além de exercer os trabalhos nas plantações, minas, serviços de ganho nas cidades, o serviço doméstico, prostituição forçada por senhoras de boas famílias e freiras católicas, gerava mão de obra gratuita e lucro para o escravizador.
Muitos senhores alugavam os escravizados reprodutores e a quantia paga pelo locatário proporcionava um bom lucro:
- Escravizadas que após parirem tinha as suas tetas alugadas.
- Crianças comercializadas, os meninos sendo filhos de reprodutores representava uma boa linhagem.
- Futuros trabalhadores nas casas grandes e fazendas (crias da casa).
Alguns fatores contribuíram para a indústria da reprodução de escravizados:
º Receios de rebelião de escravizados recém-chegados da África;
º Impacto econômico causado por leis que restringiram ou eliminaram a importação de escravizados;
º A necessidade de mão de obra barata para acompanhar o crescimento da agricultura e
º Uma espécie de eugenia que escravizados bem dotados de saúde gerariam crianças saudáveis.
Características do Reprodutor:
O reprodutor, sempre um escravizado forte e de boa saúde era tratado diferentemente da escravaria. Não realizava trabalho pesado, era bem alimentado e dispunha de muitas horas para o descanso. Era o mais cobiçado e valioso.
Há na história afro-americana alguns depoimentos de ex-reprodutores que trazem relatos monstruosos e se consideravam “heróis” e não reconheceram o mal psicológico que fizeram a um numero incontável de mulheres e as crianças geradas do desamor.
Inclusive alguns pretos bobos gostam de afirmar que são descendentes de reprodutores (estupradores). A escravidão gerou pessoas que tiveram a dignidade vilipendiada. Necessário à autocrítica e repulsa aos atos senhoris dos brancos cristãos escravizadores.
Abaixo alguns trechos:
A Sinhá correu a senzala e apartou as escrava que tava no "vicio", nas quadra da lua. Quando a quadra da lua tá certa, a "cria" é garantida. Era um rebanho de umas dez, no ponto pra tirar raça. Não era qualquer fazenda que tinha reprodutor nagô-mina, como eu. No rebanho tinha uma chamada Duca, do lombo bem feito, da anca lisa, de tetas que ia dar bom ubre, de umbigo bem curado, uns quarto que dava gosto. Andei no meio delas, negaceando, mas só via a Duca. Mas ela arrepiou, medrosa. Correu se esconder. Mas reprodutor é bicho paciencioso. Eu sabia que tinha um mês para repassar todas. De longe eu ouvia o choro dela, baixinho pra ninguém ouvir. Se a Sinhá ouvisse, o "bacalhau" comia no lombo. Fui chegando de mansinho, com fala macia, agradando. Eu era reprodutor que sabia tratar suas fêmea. O choro virou cochicho e, no fim da tarde, a Duca, negrinha de quinze pra dezesseis anos, já tava prenha. 
 
http://realidaderevista.blogspot.com.br/…/confissoes-de-um-…
"Os senhores de escravos da região de Biguaçu no século 19 pensavam que, se as escravas fossem engravidadas por escravos desobedientes, os filhos dessa união puxariam a índole do pai, isto é, tornar-se-iam desobedientes. Daí os senhores selecionarem os "machos" de suas escravas. Esses "garanhões" eram chamados de "baguás",
Quem eram os "baguás"? Eram os "negros de classe", como eram chamados na época os escravos obedientes e serviçais. Cada senhor tinha seu(s) escravo(s) preferido(s). Estes escoltavam os senhores em suas andanças. Muitas vezes eram tão fiéis ao patrão que denunciavam os companheiros que tramassem alguma coisa contra o senhor. Por isso, os "negros de classe" gozavam de regalias. Não faziam o trabalho duro da roça como os outros escravos. Muitas vezes, em retribuição, o senhor dava a permissão ao "negro de classe" virar "baguá". Mas para ser "baguá" não bastava ser obediente. Era preciso também ser forte e robusto. Se o escravo fosse fiel e robusto, a promoção para "baguá" era rápida.
Segundo Jaime Coutinho, o ritual do "engravidamento" começava com o senhor mandando as escravas irem para o "mato". Logo depois chamava o "baguá". Dava o nome das escravas e ordenava: "Vá capinar com elas". Entendido o recado, o "baguá" partia para a "missão", embrenhando-se na mata atrás das escravas indicadas pelo senhor.
Não se sabe se as escravas resistiam ou cumpriam a "ordem" sem protestar. O fato é que, meses depois, os escravinhos nasciam. Conforme Coutinho, muitos dos filhos dos "baguás" eram vendidos para capitães de navios vindos da Argentina e Paraguai que paravam em São Miguel para abastecer-se de água, vinda de um aqueduto que avançava vários metros após a praia. As crianças eram trocadas por carne.

Fonte: http://www1.an.com.br/2000/jan/04/0ane.htm 
Guaraciaba afirmou que deixou mais de 300 filhos: 100 para D. Pedro II e 200 para o Barão de Mauá, fora os que teve com as mulheres da fazenda de seu pai em Campos, ainda adolescente. “Ficou nessa vida de reprodutor deitando com duas, três, quatro mulheres por dia nas senzalas em que o Barão e o Imperador mandavam até os 38 anos, quando a Princesa Izabel aboliu a escravidão...
Fonte: http://pedacosdanossahistoria.blogspot.com.br/…/memrias-de-…
  
Para a mulher preta o estupro e a separação dos seus filhos se tornaram os maiores pesadelos da escravidão. Atos machistas de homens escravizados que perderam a respeitabilidade por suas irmãs de infortúnio. O estuprador sempre é estuprador.
Na minha concepção, a violação da mulher preta pelo homem branco ou pelo reprodutor preto foi uma violação que deve ser censurada, condenada e relembrada pela história.
Muitos dos ledores e ledoras desse artigo que não podem responder nesse exato momento, sem perguntar ou pesquisar os nomes dos tataravôs maternos e paternos, se questionam: será que eu sou descendente de um reprodutor?